Técnicas Especiais de Exame em Radiologia

Um guia aprofundado para estudantes e profissionais de radiologia

1. Exames Radiológicos Contrastados

Os exames radiológicos contrastados representam uma evolução da radiografia convencional, permitindo a visualização de estruturas que, por sua natureza, possuem densidade similar aos tecidos adjacentes e, portanto, não seriam distinguíveis em um raio-X simples. O princípio fundamental é a introdução de uma substância (o meio de contraste) que altera a atenuação dos raios-X, realçando o órgão ou sistema em estudo.

Princípios Físicos e Tipos de Contraste

Os contrastes são classificados em duas categorias principais:

  • Contrastes Positivos (Radiopacos): São substâncias com alto número atômico (como iodo e bário) que absorvem intensamente a radiação X. As áreas preenchidas por eles aparecem brancas ou opacas na imagem. São usados para preencher lúmens de órgãos ocos ou para opacificar vasos sanguíneos.
  • Contrastes Negativos (Radiotransparentes): São substâncias de baixa densidade (como ar e dióxido de carbono) que absorvem pouca radiação. As áreas preenchidas por eles aparecem escuras ou pretas. São frequentemente usados em combinação com contrastes positivos na técnica de duplo contraste para distender o órgão e revestir sua mucosa, melhorando a visualização de lesões sutis.
Comparativo de radiografia simples e contrastada
Comparativo visual entre uma radiografia simples de abdômen (esquerda) e uma com contraste de bário (direita), evidenciando o cólon.

2. Meios de Contraste

Os meios de contraste são fármacos que exigem conhecimento aprofundado sobre suas propriedades, indicações e riscos.

Meios de Contraste à Base de Bário

Composição e Propriedades

O sulfato de bário (BaSO₄) é um sal metálico inerte, insolúvel em água e não absorvido pelo trato gastrointestinal. É administrado como uma suspensão em diferentes concentrações, dependendo do órgão a ser estudado.

Indicações e Vias de Administração

  • Via Oral: Para EED e Trânsito Intestinal.
  • Via Retal: Para Enema Opaco.

Contraindicações e Riscos

A principal contraindicação é a suspeita de perfuração do trato gastrointestinal. O extravasamento de bário para a cavidade peritoneal ou mediastino pode causar uma peritonite ou mediastinite química grave, com alta morbimortalidade. Outro risco é a impactação do bário, formando um fecaloma, especialmente em pacientes idosos e com constipação.

Meios de Contraste Iodados

Composição e Propriedades

São compostos orgânicos que contêm átomos de iodo. A principal diferença entre eles reside na osmolalidade (concentração de partículas em solução) e na estrutura iônica.

  • Iônicos de Alta Osmolalidade (HOCM): Mais antigos, dissociam-se em íons na corrente sanguínea. Possuem maior risco de reações adversas.
  • Não Iônicos de Baixa Osmolalidade (LOCM): Não se dissociam, são mais seguros e atualmente o padrão na maioria dos serviços.
  • Iso-osmolares (IOCM): Têm a mesma osmolalidade do sangue, oferecendo o maior perfil de segurança, especialmente para pacientes de alto risco (insuficiência renal, diabéticos).

Indicações e Vias de Administração

Extremamente versáteis, podem ser administrados por via intravenosa (urografia, angiografia), oral/retal (em suspeita de perfuração), ou por instilação direta em cavidades (histerossalpingografia, sialografia).

Reações Adversas e Segurança

As reações podem ser leves (náusea, calor), moderadas (urticária, broncoespasmo) ou graves (choque anafilático, parada cardiorrespiratória). É fundamental realizar um questionário de risco antes da injeção, investigando alergias prévias, asma e função renal (dosagem de creatinina). Pacientes em uso de metformina devem suspender o medicamento por 48h após o contraste para evitar risco de acidose lática em caso de insuficiência renal induzida pelo contraste.

3. EED (Estudo de Esôfago, Estômago e Duodeno)

Anatomia Relevante

O esôfago é um tubo muscular que conecta a faringe ao estômago. O estômago é um órgão em forma de "J" composto pelo cárdia, fundo, corpo, antro e piloro. Sua mucosa possui pregas gástricas. O duodeno é a primeira porção do intestino delgado, dividido em quatro partes: bulbo (1ª), porção descendente (2ª, onde a bile e o suco pancreático são liberados), porção horizontal (3ª) e porção ascendente (4ª).

Anatomia do Trato Digestivo Superior
Diagrama anatômico do esôfago, estômago e duodeno.

Técnica e Procedimento Detalhado

O exame é dinâmico (fluoroscopia). O paciente inicia em pé, ingere o bário e o radiologista observa a deglutição e a peristalse esofágiana. Manobras como a de Valsalva podem ser solicitadas para pesquisar refluxo. Em seguida, o paciente deita-se, e o estômago e duodeno são avaliados em várias posições para que o contraste revista todas as paredes. A técnica de duplo contraste (com cristais efervescentes) é crucial para distender o estômago e visualizar lesões sutis na mucosa.

Principais Achados Radiológicos

  • Hérnia de Hiato: Deslizamento de parte do estômago para o tórax.
  • Úlcera Péptica: Aparece como um nicho (acúmulo de contraste) na parede, podendo ter pregas convergentes.
  • Neoplasia (Câncer): Pode se manifestar como uma falha de enchimento (lesão vegetante) ou como uma área de rigidez e estreitamento (lesão infiltrativa, "linite plástica").
  • Acalasia: Dilatação do esôfago com afilamento distal em "bico de pássaro" ou "chama de vela".
Imagem de Úlcera Gástrica no EED
Imagem de EED mostrando um nicho de bário característico de uma úlcera gástrica.

4. Trânsito Intestinal

Anatomia Relevante

O intestino delgado é um tubo longo dividido em duodeno, jejuno e íleo. O jejuno (porção proximal) possui uma mucosa com pregas circulares proeminentes (válvulas de Kerckring), que lhe conferem um aspecto "plumoso" ou "em samambaia" no exame. O íleo (porção distal) é mais liso e com menos pregas. O exame termina quando o contraste atinge o ceco, a porção inicial do intestino grosso.

Técnica e Procedimento Detalhado

Geralmente é uma continuação do EED. Após a avaliação inicial, o paciente ingere um volume maior de bário. Radiografias do abdômen são tiradas em intervalos de tempo (ex: 20, 40, 60 minutos) para acompanhar a progressão do contraste. O tempo total do exame é variável, dependendo da motilidade do paciente. O tecnólogo deve realizar compressão abdominal para separar as alças intestinais sobrepostas.

Principais Achados Radiológicos

  • Doença de Crohn: Achados clássicos incluem espessamento da parede, úlceras aftoides, aspecto em "pedra de calçamento" (cobblestone), e estenoses (o "sinal da corda" ou "string sign"). Frequentemente afeta o íleo terminal.
  • Obstrução: Dilatação das alças a montante do ponto de obstrução, com ausência de contraste distalmente.
  • Síndromes de Má Absorção: Podem causar dilatação das alças e floculação do meio de contraste.
Sinal da Corda na Doença de Crohn
Trânsito intestinal demonstrando o "sinal da corda", uma estenose severa no íleo terminal, típico da Doença de Crohn.

5. Enema Opaco

Anatomia Relevante

O intestino grosso (cólon) começa no ceco, continua como cólon ascendente, transverso, descendente, sigmoide, reto e termina no ânus. Suas características anatômicas incluem as haustrações (saculações) e as tênias cólicas (fitas musculares longitudinais).

Técnica e Procedimento Detalhado

Um preparo intestinal rigoroso é essencial. O paciente é posicionado na mesa e uma sonda retal é inserida. O bário é infundido lentamente por via retal. Na técnica de duplo contraste, após o enchimento inicial, o bário é parcialmente drenado e ar é insuflado para distender o cólon e revestir a mucosa. São realizadas múltiplas radiografias em diferentes posições (decúbito, oblíquas, perfil) para visualizar todos os segmentos do cólon sem sobreposição.

Principais Achados Radiológicos

  • Pólipos: Lesões que crescem para dentro do lúmen, vistas como falhas de enchimento, mais bem definidas no duplo contraste.
  • Doença Diverticular: Pequenas herniações da mucosa através da parede muscular, vistas como saculações (divertículos).
  • Câncer Colorretal: O aspecto clássico é a "lesão em miolo de maçã" (apple core lesion), um estreitamento anular e irregular do lúmen.
  • Retocolite Ulcerativa: Perda das haustrações, granularidade da mucosa e, em casos crônicos, um aspecto de "cano de chumbo" (lead pipe).
Lesão em Miolo de Maçã
Enema opaco mostrando uma lesão em "miolo de maçã" no cólon sigmoide, característica de adenocarcinoma.

6. Urografia Excretora (UGE / UIV)

A Urografia Excretora, ou Urografia Intravenosa, é um exame radiológico contrastado que fornece uma avaliação detalhada tanto da morfologia quanto da função dos rins, ureteres e bexiga. Através da injeção de contraste intravenoso, é possível acompanhar seu percurso de filtração e excreção pelo sistema urinário.

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7. Uretrocistografia (UCG ou UCM)

A Uretrocistografia é um exame radiológico funcional que estuda a bexiga e a uretra. É essencial para diagnosticar refluxo vesicoureteral, estenoses uretrais, incontinência urinária e outras patologias do trato urinário inferior. A técnica e a anatomia de referência diferem significativamente entre os sexos masculino e feminino.

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8. Histerossalpingografia (HSG)

A Histerossalpingografia é um exame radiológico contrastado fundamental na investigação da infertilidade feminina. Ele avalia a morfologia da cavidade uterina e, crucialmente, a permeabilidade das tubas uterinas, verificando se o caminho para a fertilização está livre.

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9. Hemodinâmica - Princípios e Monitorização

Hemodinâmica é o estudo das forças envolvidas na circulação sanguínea, crucial para o manejo de pacientes em estado crítico. Esta seção aborda os princípios fundamentais de pressão arterial, débito cardíaco e resistência vascular, além das técnicas de monitorização, desde a básica até a avançada, e sua aplicação no diagnóstico e tratamento dos diferentes tipos de choque.

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10. Densitometria Óssea (DXA)

A Densitometria Óssea (DXA) é o exame padrão-ouro para o diagnóstico da osteoporose e avaliação do risco de fraturas. Utilizando uma baixíssima dose de radiação, o exame mede a densidade mineral óssea em locais chave como a coluna lombar e o fêmur, sendo essencial para o manejo de doenças metabólicas ósseas.

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11. Sialografia

A Sialografia é um exame radiológico contrastado para o estudo das glândulas salivares maiores (parótidas e submandibulares) e seus sistemas de ductos. É um procedimento detalhado, crucial para o diagnóstico de cálculos (sialolitíase), inflamações crônicas (sialadenites) e outras patologias glandulares.

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12. Fistulografia

A Fistulografia é um exame radiológico contrastado utilizado para mapear trajetos fistulosos ou sinusais. Ao injetar contraste no orifício externo, o exame delineia a origem, o trajeto e as possíveis ramificações da fístula, fornecendo um "mapa" essencial para o planejamento cirúrgico e tratamento de condições complexas.

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